História

Um caminho de simplicidade e serviço

As origens

A história começa muito antes do seu nascimento. Em 1875, Carlo Natale Depiné e Teresa Fadanelli deixaram a região de Trento, no norte da Itália, e cruzaram o oceano em busca de terra e futuro. Encontraram os dois em Rodeio, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina — um lugar de morros verdes, roças pequenas e capelas simples.

Ali, em 23 de dezembro de 1939, José Depiné — agricultor, alfaiate e Juiz de Paz — casou-se com Lydia Ida Maria Benkendorf, de ascendência alemã. Formaram uma família muito religiosa: os pais pertenciam à Ordem Franciscana Secular e ao Apostolado da Oração, e eram presença certa nas celebrações. Rui Guido, nascido em 8 de outubro de 1942, foi o segundo de onze irmãos — quatro homens e sete mulheres — e cresceu entre o milho, o arroz, a horta e as vacas, aprendendo cedo que o trabalho e a oração caminham juntos.

Vista de Rodeio (SC), com a Igreja Matriz ao centro do vale
Rodeio (SC), no Vale do Itajaí — onde tudo começou.

A vocação

Menino, ia à escola de pés descalços com a irmã Lourdes, guardando os sapatos para chegar limpo. Servia como coroinha na capela das Irmãs Catequistas Franciscanas e já então repartia o próprio lanche com quem tinha menos. Quem o via ajudar na Missa dizia: este menino vai ser padre.

Em 1954, ainda menino, ingressou no Seminário de Rodeio, da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. A formação o levou ao Seminário Seráfico de Rio Negro (PR) em 1956 e ao Seminário de Agudos (SP) em 1958; fez o noviciado em Rodeio em 1964, o curso de Filosofia em Curitiba em 1965 e o de Teologia em Petrópolis (RJ) em 1968. Em 18 de julho de 1971, foi ordenado sacerdote na terra natal, diante da família e dos vizinhos que o viram crescer.

“Somos a esperança de alguma coisa que em nós poderá acontecer.”Frase da lembrança de sua ordenação sacerdotal, 1971

As primeiras missões

Em 6 de dezembro de 1971 seguiu para a Baixada Fluminense, em Duque de Caxias (RJ), Piabetá, onde atuou nas comunidades e favelas do Esqueleto, Rocinha, Beija-Flor, Pinto e Mangueira, entre outras. Trabalhou na pastoral, nas capelas e na ação social, ajudou a construir igrejas e foi líder da juventude franciscana.

Em 3 de março de 1975 foi para Concórdia (SC), onde ajudou a erguer a igreja local e atendeu todas as capelas da região. Envolveu-se na construção de casas para famílias necessitadas — de tal forma que hoje existe em Concórdia um bairro, o Nova Brasília, nascido basicamente daquela ação. Nessas missões ficou conhecido por uma coisa simples e desconcertante: não guardava nada. Vinhos, roupas, sapatos, presentes — tudo o que recebia acabava nas mãos de quem precisava mais.

São Roque, em Piraquara

Em 12 de dezembro de 1978, Frei Rui veio ao encontro dos hansenianos da Colônia São Roque, em Piraquara (PR). Foram quase quarenta anos como capelão do Hospital São Roque, atual Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná. O lugar havia nascido como espaço de isolamento das pessoas atingidas pela hanseníase — um endereço de exclusão e sofrimento. Frei Rui o transformou em casa.

Quando o hospital foi reestruturado e os internos puderam morar em suas próprias casas, muitos não tinham para onde ir: haviam perdido contato com as famílias e ainda dependiam do tratamento. Frei Rui envolveu benfeitores na compra de terrenos próximos e na construção de casas para os egressos. Entre 1980 e o fim dos anos 1990, com a grande onda migratória para Piraquara, ampliou ainda mais esse trabalho: junto com benfeitores, construiu mais de mil casas, especialmente nos bairros de Guarituba, Vila Macedo, Santa Mônica, Jardim Primavera, Bela Vista e São Cristóvão. No Guarituba, de solo encharcado, levou centenas de caminhões de terra para tornar a vida possível ali. Prestou também relevante assistência aos indígenas guaranis da Aldeia Araçaí, nas montanhas de Piraquara.

A promoção humana acontecia de todas as formas: comida, remédios, móveis, roupas, material escolar e festas de Natal, Páscoa e Dia das Crianças com farta distribuição de doces e brinquedos. Esse trabalho imenso só foi possível pela parceria constante e fraterna das Irmãs da Congregação das Irmãs Franciscanas de São José, presentes no São Roque desde 20 de outubro de 1926 — e que até hoje seguem distribuindo cestas básicas às famílias cadastradas.

Com sua capacidade de aglutinar amigos, ajudou a fundar instituições beneficentes e entidades filantrópicas, entre elas a ABSR — Associação Beneficente São Roque e a Fundação Pró-Hansen, além de contar com a Associação e Oficinas de Caridade Santa Rita de Cássia. Esteve presente em hospitais, com destaque para o Hospital San Julian, e teve forte atuação junto à Colônia Penal: alguns presos trabalhavam no São Roque, onde ele evangelizava e ensinava ofícios como marcenaria e jardinagem. Atendia penitenciárias e delegacias, fazia sepultamentos e visitava as casas de todos — dos mais abastados aos mais necessitados —, sempre levando o pão, o remédio, o agasalho e, principalmente, sua presença franciscana e amiga.

O pomar, os pássaros e a música

Ao lado da capela São Roque, entre araucárias centenárias, cultivou um pomar. Colhia e repartia os frutos com confrades, irmãs, moradores e visitantes. Amava os pássaros e a natureza com aquela alegria franciscana que não precisa de explicação.

Amava também a música. Formou corais, ensaiou cantos, encenou a Paixão de Cristo e repetia a quem quisesse ouvir que sem música não se celebra bem uma Missa. Nas férias em Rodeio, reunia os primos na casa dos avós para ensinar inglês atrás de uma porta de madeira, e depois jogava futebol com eles até a bola sumir no escuro.

O silêncio e a Páscoa

Nos últimos anos, o Parkinson foi tirando dele a fala e o movimento. Em 2018 foi transferido para uma casa de repouso franciscana. Amigos percorriam mais de quinhentos quilômetros para vê-lo, e às vezes, num lampejo, ele reconhecia e sorria — bastava isso para valer a viagem.

Na madrugada de 12 de junho de 2020, véspera do dia de Santo Antônio, Frei Rui voltou para o Pai, em Bragança Paulista (SP).

Eremitério Frei Egídio, em Rodeio (SC)
Eremitério Frei Egídio, em Rodeio (SC): lugar de silêncio, oração e retorno às raízes.

O legado

O legado de Frei Rui não está em monumentos. Está nas famílias que ganharam casa, nos doentes que voltaram a ser tratados como pessoas, nos jovens que aprenderam a cantar, nos amigos que aprenderam a repartir. Está numa maneira de viver: sem apego, sem vaidade, sem medo de perder.

Sempre perseguido, mas alegre. Nunca se rendeu ao erro nem à injustiça. Seu nome era resiliência — e sua vida, uma esperança que segue caminhando.