Escritos do Frei Rui
Meu Talismã
12 de março de 2021
O Talismã do Frei Rui.
Hoje, 12/03/2021, faz 9 meses do falecimento do Frei Rui. E ele nos conta que tinha um Talismã. Uma estória singela que mostra o quanto ele era sensível e incomum.
Nós também temos a graça de termos um tipo de talismã: ele se chama Frei Rui. E “sua maior virtude também consiste em não se separar de nós”. Ele está dentro do nosso coração e fez morada em nossa alma. E deixou um legado que não será esquecido.
Obrigado por tudo, Frei Rui!
Meu Talismã
Frei Rui Depiné o.f.m.
Há trinta anos carrego comigo pequeno objeto retangular que eu chamo: meu talismã.
Coube-me por mérito num desafio lançado por um antigo Mestre no Seminário do Rio de Janeiro em 1956. Era um piquenique nos arrabaldes. Todo mundo a caminho de Cascavel. Quem derrubasse mais pinha em menos tempo, levaria um troféu. Pertenceu-me.
E é o meu pequeno talismã, sua maior virtude consiste em não se separar de mim.
Juntos percorremos os mais diversos caminhos da vida: bosques, cidades, vales, montanhas, rios e mares, catedrais e cemitérios e permanecemos juntos. Meu talismã. De bolso em bolso, passa por paletós, camisas, calças, pijamas, casacos e volta pra mesma mão. Vezes sem fim desaparece temporariamente entre livros, prateleiras, mesas, automóveis, armários, aspiradores, lavanderias, campos de esportes, lavouras, hortas, etc, mas sempre volta.
Certa feita ficou na cabeceira de um mourão por três meses. Nem a chuva, nem o vento, nem a tempestade o consumiu. E ainda sob a pedra às margens do rio da várzea foi resgatado muito tempo depois. Meu talismã é imperdível, insubstituível, inseparável. Faz parte de mim. É até certo ponto propriedade, herança, inventário, espólio e conquista. Foi preciso deixar marcas de sangue na casca áspera de um pinheiro e ralar braços, mãos e pés para merecê-lo. Meu talismã tem o mistério da fonte, da lareira, da semente, das estrelas, do infinito.
Tem verso e reverso. De um lado duas flores intercaladas por uma inscrição “Assisi”. Do outro a imagem do Poverello, uma árvore e um bando de pássaros. Todos tem alma conforme sua natureza e parecem dizer que é preciso ter um segredo secreto muito firme para ser feliz. Assim fala o meu pequeno talismã.
N.B.: Há três dias depois de ter escrito estas palavras, perdi talvez para nunca mais encontrá-lo.